O escravismo colonial, implantado no Brasil como modo de produção que possibilitaria aos portugueses obterem lucros palpáveis com as suas terras, conquistadas na América, fez com que o africano retirado de seu mundo selvagem na África viesse para este novo mundo, sendo considerado uma mercadoria, como nos relata Jacob Gorender em seu livro intitulado Escravidão Colonial: A característica mais essencial, que se salienta no ser escravo, reside na sua condição de propriedade de outro ser humano. ( GORENDER 1978: 66 ) Sendo uma propriedade, um objeto, e não possuindo uma alma e muito menos uma cultura, e nem mesmo uma religião, este cativo conseguiu apesar de toda a crueldade, preconceito e opressão existentes no sistema escravista resistir e manter ao longo dos anos suas tradições, através de uma resistência cultural, principalmente com a sua religiosidade ele conseguiu manter vivo seus costumes até os nossos dias, mesmo conciliando elementos do catolicismo e dos cultos indígenas ele irá deste modo resistir a imposição cultural e religiosa da classe dominante.
A religião africana é considerada um culto de origem escrava e deste modo cultuada num primeiro momento, por escravos que não eram considerados humanos e muito menos produtores de cultura, sendo assim, o que nos levou a fazer este artigo é procurar refletir sobre a inserção do escravo africano na economia brasileira, e também sobre o porquê a religião africana é cada vez mais cultuada no Brasil? Na tentativa de esclarecer esta questão, esse artigo pretende na medida do possível e dentro das limitações existentes, pesquisando em livros e periódicos, verificar qual o motivo que levou ao aumento da procura pelas religiões africanas, levando em consideração os preconceitos existentes na sociedade brasileira.
Os africanos eram arrancados de sua terra onde viviam em comunidades aldeãs. O historiador Mário Maestri nos diz o seguinte sobre essas comunidades:
Em meados do século XV, as sociedades africanas compunham-se, em geral, de comunidades aldeãs que conheciam uma organização econômica e social baseada na família e, sobretudo, na aldeia. ( MAESTRI 1994:38 )
Esses cativos são entregues aos escravizadores ou comerciantes que entendiam do negócio com os feitores, onde eram embarcados nos navios negreiros e tomavam a direção para o novo mundo, a América. A viagem era uma travessia macabra com péssimas condições, onde quanto mais demorada a viagem, maior a mortalidade a bordo.( MAESTRI 1994:49) O escravo africano era conduzido a atravessar o oceano Atlântico rumo ao seu novo lar no nosso caso o Brasil, sendo inserido na sociedade escravocrata brasileira aonde iria alimentar a economia brasileira durante todo o período colonial e o império.
É interessante ressaltar o que relata Jacob Gorender sobre os africanos que chegaram no Brasil, de acordo com ele:
...os africanos chegaram ao Brasil já destribalizados, arrancados do meio social originário e convertidos á força em indivíduos dessocializados. O tráfico arrebanhou negros procedentes de numerosos etnias, heterogêneas do ponto de vista da evolução social, da língua, das tradições, costumes, etc. (GORENDER 1978: 133 )
Este africano ao ser retirado de sua tribo, de sua aldeia onde praticava suas tradições e seus costumes, que para a sociedade européia da época eram considerados hábitos de selvagens de um macaco um pouco mais evoluído e para sociedade colonial, onde a classe dominante era composta pôr europeus, estes preconceitos se repetem, e muitas vezes de uma forma muito mais voraz. As tradições e crenças deste escravo, são vistas como coisas animalescas, mas mesmo com todo o preconceito existente suas tradições conseguem resistir a imposição cultural da classe dominante, principalmente através da religião, mesmo esta sofrendo o sincretismo da religião católica e indígena, que possibilitaram a sobrevivência e resistência de sua cultura.
Num primeiro momento, podemos dizer que a religião africana viveu no submundo do sistema dominante sobrevivendo nas senzalas junto aos escravos, mas de certo modo tolerado pelos senhores, que não impediam seus escravos de fazerem seus cultos nas senzalas devido ao sincretismo com os santos católicos, segundo o historiador João José Reis: Essa disponibilidade para mesclar cultura era um imperativo de sobrevivência...foram forçados a mudar coisas que não mudariam se não submetidos a pressão escravocrata colonial...( FERRETI, 1998:192 ) Os escravos ao chegarem no Brasil sofreram a imposição cultural do sistema escravista, o único meio durante séculos de fazer um retorno a suas origens africanas era quando cultuavam seus orixás, uma forma que esses escravos encontraram para não sofrerem uma opressão maior, diante de sua religiosidade foi mesclar aspectos dos orixás africanos com os santos católicos, como exemplo podemos citar o Xangô no panteão africano que é o Deus do trovão da Justiça, este na religião católica sincretiza com São Jerônimo e também com São Miguel, esse foi um meio muito inteligente utilizado pelos escravos de conseguir manter vivas suas origens mesmo com algumas adaptações necessárias devido ao momento histórico que estavam vivendo.
De acordo com Reginado Prandi em seu artigo publicado pela revista Horizontes Antropológicos:
Até os anos 1930, as religiões negras poderiam ser incluídas na categoria das religiões étnicas ou de preservação de patrimônio culturais dos antigos escravos negros e descendentes, enfim, religiões que mantinham vivas tradições de origem africana. ( PRANDI 1998: 152 )
Os cultos de origem africana, foram ao longo dos anos se adaptando e de certo modo tentando resistir ao sistema escravista, e um dos meios utilizados foi se adaptar a condições sociais e históricas diferentes, o que levou ao sincretismo.
O que é interessante ressaltar é que até pôr volta de 1930 como nos diz o sociólogo da USP Prandi, a religião de origem africana permanece sendo uma religião de descendentes de escravos, reservada a uma etnia, no entanto após 1930 iremos ver um aumento dos seguidores e simpatizantes, principalmente devido a umbanda que se difundia nas regiões do Rio de janeiro e São Paulo, sendo considerada uma religião autenticamente brasileira, que surge do sincretismo das religiões de origem africana, católicas e espiritas. De acordo com Moacyr Flores:
O terreiro ou centro espirita de umbanda acolhe pessoas de todas as crenças. Se um católico entrar no terreiro, encontrará os santos de gesso que os padres tiraram do altar, os antigos cantos que não se ouve mais na igreja e as defumações... O espirita também se encontra em casa pois no terreiro baixam espíritos de pretos velhos, que dão passes e receitam remédios... ( FLORES 1989: 54 )
Com o surgimento da umbanda nas décadas de 20 e 30, nos grandes centros urbanos que estavam se industrializando, foi possível que as religiões de matriz africana ganhassem uma dimensão maior atingindo aos poucos todo o território nacional e deste modo ampliando o universo de seguidores. O que é importante compreendermos como nos diz Reginaldo Prandi é que até o final dos anos 50 do século XX... a história das religiões afro-brasileira é uma história de apagamento de características de origem africana e ajustamento à cultura nacional de preponderância européia que é a branca. ( PRANDI 1998: 157 ) Essa adaptação a cultura branca leva a um branqueamento das religiões africana, o que possibilita que ela ultrapasse o horizonte de uma religião somente de descendentes de escravo e comece a arrecadar simpatizantes de outras etnias.
Segundo Reginaldo Prandi:
Por volta de 1950, a umbanda já tinha se consolidado como religião aberta a todos, não importando as distinções de raça, origem social, étnica e geográfica. Por ter a umbanda desenvolvido sua própria visão de mundo, bricolagem européia-africana-indigena, símbolo das próprias origens brasileiras, ela pôde apresentar-se como fonte de transcendência capaz de substituir o velho catolicismo ou então juntar-se a ele como veículo de renovação do sentido religioso da vida. ( PRANDI 1998: 157 )
Aos poucos o candomblé que antes se restringia a Bahia e Pernambuco regiões do país onde existe um contingente bastante grande de descendentes de escravos começa a penetrar no território da umbanda nas grandes cidades industrializadas do sudoeste do país, a época em que o candomblé começou a se instalar nessas cidades eram os anos 60, um período de muita inquietação no que diz respeito a cultura, amplia-se o interesse por um resgate da cultura nacional, é a época da contracultura dos hippes nos Estados Unidos da busca pôr outros valores para a vida que não estão no mundo fechado das universidades é uma época onde o que é exótico esta em moda e esta nova era que surgia na história, cairia também no Brasil a busca pôr estes novos valores pôr este exótico pôr uma identidade nacional faria com que os olhos dos estudantes intelectuais se voltassem para as religiões afro-brasileiras conforme Prandi:
... naquele período, importantes movimento de classe média, buscavam pôr aquilo que poderia ser tomado como as raízes originais da cultura brasileira. Intelectuais, poetas, estudantes, escritores e artistas participaram desta empreitada, que tantas vezes foi bater à porta das velhas casas de candomblé da Bahia.
( PRANDI 1995:13 ).
O interesse dessa classe média, de intelectuais e artistas aos quais podemos citar: Jorge Amado, Dorival Caymi, Caetano Velosso dentre tantos outros sem dúvida contribuíram muito com o processo de tornar a religião dos escravos africanos de resistência cultural em uma religião universal, aberta a todas as etnias, pôr conseguinte podemos afirmar que durante os anos 60 a religião africana teve seu retorno a suas origens africanas, aos poucos o candomblé foi sendo cultuado de norte a sul do país e isso é um dos aspectos que levou com que a religião que sofreu ao longo de séculos a discriminação pôr ser uma religião de selvagens, pois lida com ervas e matança de animais, ser cada vez mais cultuada no Brasil.
Conforme o candomblé vai ganhando espaço nesses grandes centros urbanos, ele vai perdendo sua ligação direta com o aspecto de resistência ao mundo do dominador do opressor branco como funcionava nos tempos da escravidão e vai se tornando uma religião para todos conforme o professor de sociologia da USP supracitado neste artigo Reginaldo Prandi:
...Afrouxa-se seu foco nas diferenças raciais e ele vai deixando para trás seu significado essencial de mecanismo de resistência cultural...As novas condições de vida na sociedade brasileira industrializada fazem mudar radicalmente o sentido sociológico do candomblé...alguém adere ao candomblé não pelo fato de ser negro, mas porque sente que o candomblé pode fazer sua vida mais fácil de ser vivida...não importa se é branco ou negro.
( PRANDI 1995:21 )
Essa abertura esse aumento do culto das religiões africanas no Brasil não quer disser que ela na atualidade ainda não seja vista como uma religião de crendices, superstição, de pessoas com pouca formação, o preconceito e a discriminação permanecem ainda nos dias de hoje provavelmente devido ao fato de nosso passado escravista, mas o que é interessante, é que ao longo dos anos estas religião afro-brasileiras vem ganhando cada vez mais seguidores e simpatizantes vejamos alguns dados que são colocados pôr Reginaldo Prandi:
Para o conjunto da população brasileira adulta, no ano de 1994, os seguidores das religiões afro-brasileiras ( todas as modalidades ) tem a seguinte distribuição: 51% são brancos; 29%, pardos, 18%, pretos. A umbanda separadamente tem 57% de seguidores brancos, 27% de pardos e 15% de pretos. O candomblé tem 40% de brancos, 33% de pardos e 24% de pretos. ( PRANDI 1998: 160 )
Podemos desta forma concluir que esta religião dos orixás africanos que vieram para nosso país junto com os Africanos que eram comprados pelos senhores de engenho para serem inseridos no sistema escravista como mão de obra e alimentarem a economia de nosso país, sofreu três processos que foram de vital importância para que esta religião atingisse uma dimensão nacional, e tivesse nos dias de hoje tantos simpatizantes. Primeiramente foi o processo de sincretismo onde ela sincretizou com a religião oficial a católica como forma de poder resistir e mascarar sua verdadeira identidade criando ligações com os orixás e os santos da igreja, podendo deste modo viver de forma bastante oculta nas senzalas, proporcionando com que o escravo resistisse a imposição cultural da classe dominante e mantivesse vivo seus laços com África sua terra de origem adaptando-se deste modo a realidade histórica em que estava inserida sem perder suas raízes, esta religião afro-brasileira acaba também mesclando aspectos dos cultos dos indígenas. Depois de longos anos de escravidão de preconceitos e opressão sendo muito pouco conhecida e muitas vezes perseguida pelas autoridades, temos o processo de branqueamento que teve inicio conforme vimos nesse artigo pôr volta das décadas de 20 e 30 com a Umbanda que nasce nos grandes centros urbanos São Paulo e Rio de Janeiro e mistura a religião católica, espirita e africana, fazendo com que se amplie o universo de seguidores dessas religiões afro-brasileiras a outras etnias e não mais somente a descendentes de escravos. E o terceiro e ultimo processo analisado foi o de africanização que é um retorno pôr volta dos anos 60, com intelectuais artistas e estudantes que buscavam as origens do povo brasileiro, notamos uma volta dessa religião afro-brasileira a sua matriz africana abrindo o espaço no sudoeste do país para que penetrasse o candomblé ganhando uma dimensão nacional e tornando-se uma religião universal aberta a todos independentes de qual etnia a pessoa pertença, e esses são os aspectos que conseguimos compreender neste trabalho de pesquisa sobre o que levou com que se amplia-se o numero de seguidores e simpatizantes dessas religiões africanas sendo elas de escravos.
IRICI FELIPE BORGES FRANCO
IRICI FELIPE BORGES FRANCO
Referências Bibliográficas
GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial. São Paulo: Ática, 1978 .
MAESTRI, Mário José. O Escravismo no Brasil. São Paulo: Atual, 1994.
FLORES, Moacyr. Sincretismo religioso afro brasileiro. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 125, janeiro de 1989.
PRANDI, Reginaldo. Referências Sociais das Religiões Afro- Brasileiras: Sincretismo,
Branqueamento, Africanização. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 4, n.8,
P-151-167, junho de 1998.
PRANDI, Reginaldo. Deuses Africanos no Brasil Contemporâneo: Introdução Sociológicas ao Candomblé de Hoje. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, V.1, n.3, julho de 1995.
FERRETI, Sérgio F. Sincretismo Afro-Brasileiro e Resistência Cultural. Horizontes
Antropológicos, Porto Alegre, ano 4, n.8, p 182- 198, junho de 1998. SINCRETISMO BRANQUEAMENTO E AFRICANIZAÇÃO COMO PROCESSOS QUE CONTRIBUÍRAM PARA EXPANSÃO NACIONAL DAS RELIGIÕES DE ORIGEM AFRICANA
Nenhum comentário:
Postar um comentário