Seja por sua profunda
influência em Portugal, seja pela forte imigração no último século, a cultura
árabe tem presença garantida na história e na sociedade brasileiras.
Junto com os colonizadores, no século XVI, desembarcaram heranças
de sua língua, música, culinária, arquitetura e decoração, técnicas agrícolas e
de irrigação, farmacologia e medicina. É que os árabes dominaram por quase oito
séculos a Península Ibérica. Significativamente, Granada, seu último reduto em
solo europeu, foi conquistada pelos cristãos em 1492, mesmo ano em que Colombo
chegava à América.
Foram os árabes que introduziram na Europa coisas tão básicas como
os algarismos decimais – em substituição aos romanos, difíceis de usar para
cálculos –, jogos, como o xadrez, e a própria arte caligráfica, pois encaravam
a palavra escrita como o meio por excelência da revelação divina. Na culinária,
difundiram o uso do café, de doces próprios e produtos de pastelaria, do
azeite, em substituição à proibida gordura de porco, e de muitos outros
temperos, como o açafrão, a noz-moscada, o cravo, a canela e pimentas.
Recebemos tudo isso indiretamente, via colonização, em uma ampla
variedade de aspectos. Até mesmo o bom costume da limpeza pessoal, que muitos
atribuem somente aos indígenas, deve um tributo aos árabes. Foi Gilberto
Freyre, em seu Casa-Grande & Senzala, quem apontou o contraste da “higiene
verdadeiramente felina dos maometanos com a imundície dos cristãos”.
Na
música, o alaúde teve vasta descendência nas Américas, procriando verdadeiras
famílias de instrumentos caribenhos, o bandolim e o cavaquinho brasileiros, a
charanga do altiplano andino e o banjo dos negros norte-americanos. A gaita
árabe é possível antecessora da gaita ibérica, e o adufe, precursor do
pandeiro.
A aridez dos solos desérticos capacitou-os como mestres nas
técnicas agrícolas e de irrigação, importando para a Europa o moinho d’água,
avô do engenho colonial, e lá semeando o algodão, a laranjeira, a criação do
bicho-da-seda, o cultivo do arroz e da tão “brasileira” cana-de-açúcar. As
próprias técnicas construtivas, como a telha de barro do tipo capa e canal, ou
ainda a taipa de pilão, tão dominante nos primeiros séculos do Brasil, são de
influência nitidamente árabe.
O segundo movimento marcante foi a chegada direta de imigrantes,
sobretudo sírios e libaneses, a partir do final do século XIX. É possível que a
visita do imperador D. Pedro II a Beirute e a Damasco, em 1876, tenha servido
como primeira aproximação cultural entre as áreas de origem da imigração árabe
e o Brasil. Mas essa circunstância, por si só, não seria capaz de lançar tantos
espíritos inquietos na aventura de uma odisseia tão distante. A pretensão
inicial era uma migração temporária, para amenizar as dificuldades financeiras enfrentadas
por suas famílias.
Viviam um tempo de restrições econômicas, por conta da entrada de
produtos industrializados europeus (que minou a renda derivada da produção
artesanal), de algumas pragas agrícolas e da necessidade de mais terras para a
incorporação de herdeiros. Além desses motivos econômicos, outros fatores
relevantes influenciaram a decisão de partir, como a competição por status
entre famílias nas aldeias e os frequentes conflitos religiosos entre cristãos
e muçulmanos. Preocupante também era o recrutamento militar obrigatório
empreendido pelos turcos, em uma época de riscos provocados pela decadência do
Império Otomano.
De qualquer modo, os migrantes não eram aventureiros isolados, mas
indivíduos inseridos num contexto familiar, dispostos a acumular capital
durante certo tempo e depois voltar ao seio da família e da aldeia de origem.
Entretanto, o que pretendia ser provisório acabou se tornando permanente: em
vez de o imigrante retornar, em muitos casos foi o restante da família que veio
se juntar a ele no Brasil.
Redes de parentes, amigos e conterrâneos se articularam,
fornecendo referências valiosas aos que decidiam vir. Na mente de cada
emigrante formou-se uma geografia imaginária: um tio em São Paulo tornava
aquela capital brasileira mais próxima de sua aldeia na Síria ou no Líbano do
que a Espanha, ali do outro lado do Mediterrâneo. Interesses e favores dos
muitos conhecidos propiciavam o início da vida no novo país: casa, trabalho,
escola para os filhos.
Muitos dos já estabelecidos ofereciam um crédito inicial – sob a
forma de mercadorias, por exemplo – aos recém-chegados. Esse intenso movimento
migratório alcançou os rincões mais remotos do continente.
Onde quer que chegassem, eram
chamados da mesma forma: “turcos”. Uma confusão que os ofendia duplamente –
pelo equívoco geográfico e por referir-se a seus dominadores históricos. Culpa
dos passaportes que usavam, até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) expedidos
pelo Império Otomano.
No Brasil, a maioria era de origem libanesa ou síria. Sua
principal ocupação nos países de origem havia sido a agricultura, mas por aqui
abraçaram como profissão o comércio. Perseguiam a autonomia de gerir seu
próprio negócio, ainda que este fosse minúsculo a ponto de caber em uma caixa
de vendedor ambulante. A maior concentração ocorreu em São Paulo, mas os
“turcos” se espalharam por todo o país. Exemplo curioso dessa abrangência
geográfica: foi um mascate libanês quem filmou as únicas imagens conhecidas do
cangaceiro Lampião, na década de 1930. Benjamin Abrahão, que era também
fotógrafo e homem de confiança do padre Cícero, infiltrou-se no bando e gravou
momentos do seu cotidiano, como narra o filme “Baile perfumado” (Paulo Caldas e
Lírio Ferreira, 1996).
Os árabes mascateavam também pelas zonas rurais, mas fixaram-se
sobretudo nas cidades, inicialmente em cortiços, moradias populares com cômodos
para alugar, onde se aglomeravam famílias inteiras em espaço reduzido. A vida
girava em torno da família e do trabalho. Loja na frente, casa nos fundos ou no
andar de cima do sobrado, família “mourejando”, trabalhando “como mouros”.
Mas o balcão das lojas não seria o ponto de chegada de suas
trajetórias. De mascates a pequenos comerciantes, depois varejistas,
atacadistas e industriais. Vencidas as dificuldades da primeira geração, os
pioneiros trataram de buscar para seus filhos a ascensão socioeconômica via
educação. Queriam vê-los como doutores – especialmente médicos e advogados –, e
assim muitos o fizeram, aproveitando-se, no início, de clientelas cultivadas na
própria colônia, depois estendidas a outros estratos sociais.
A partir de então, a inserção privilegiada e o amplo conhecimento
social angariado desde os tempos de mascate, aliados à legitimidade que um
diploma conferia, frutificaram em carreiras públicas. Em todo o continente
menciona-se o grande número de descendentes de árabes na política, como os
presidentes Turbay Ayala na Colômbia, Abdalá Bucaram no Equador e Carlos Menem
na Argentina. De posições destacadas em áreas como a linguística e a medicina,
a presença árabe chegou ao que há de mais popular no Brasil: o futebol, o jogo
do bicho, as escolas de samba. O que demonstra, apesar da origem cultural
relativamente distante, uma extraordinária capacidade de adaptação à nova
terra.
Outra peculiaridade que ilustra essa integração vigorosa é a
incorporação de iguarias à culinária local. Em São Paulo, de acordo com o
Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares, um quarto das refeições
servidas provém da culinária árabe. Algumas receitas difundidas pelos
imigrantes integram hoje a dieta habitual da classe média brasileira, como o
quibe, a esfiha, o tabule, a coalhada, o babaganouche, o pão sírio e a
lentilha.
Restaurantes especializados em cozinha árabe (ou em adaptações
inspiradas nela) proliferaram de tal forma que não há guia gastronômico sem uma
seção dedicada a eles ou shopping center em cuja praça de alimentação um deles
não esteja presente.
Até hoje, mais de um século após a vinda dos primeiros imigrantes,
nas entrevistas colhidas entre os mais velhos, entre aqueles capazes de olhar
para trás conscientes das dificuldades enfrentadas e do caminho percorrido, o
balanço da trajetória e da vida não deixa de registrar depoimentos emocionados.
“Na vida brasileira a gente adquire desde a infância uma tolerância que não
existe lá (...) Eu estou satisfeito da minha vida, confio no Brasil, aqui é
minha terra”.
Esse sentimento de gratidão e confiança, em geral embalado por uma
considerável mobilidade socioeconômica, resume a bem-sucedida história dos
imigrantes sírios e libaneses no Brasil, um país tributário da cultura árabe
desde a alvorada da colonização. H
Saiba Mais - Bibliografia:
FREYRE, Gilberto. Casagrande & Senzala. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1969.
GREIBER, Betty Loeb et alii. Memórias da imigração - libaneses e
sírios em São Paulo. São Paulo: Discurso Editorial, 2000.
KARAM, J., T.. Um outro arabesco: etnicidade sírio-libanesa no
Brasil neoliberal. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
KNOWLTON, Clark S.. Sírios e Libaneses: mobilidade social e
especial. São Paulo: Anhambi, 1961.
Postado: Prof,: Felipe
Franco
Seja por sua profunda
influência em Portugal, seja pela forte imigração no último século, a cultura
árabe tem presença garantida na história e na sociedade brasileiras.
Junto com os colonizadores, no século XVI, desembarcaram heranças
de sua língua, música, culinária, arquitetura e decoração, técnicas agrícolas e
de irrigação, farmacologia e medicina. É que os árabes dominaram por quase oito
séculos a Península Ibérica. Significativamente, Granada, seu último reduto em
solo europeu, foi conquistada pelos cristãos em 1492, mesmo ano em que Colombo
chegava à América.
Foram os árabes que introduziram na Europa coisas tão básicas como
os algarismos decimais – em substituição aos romanos, difíceis de usar para
cálculos –, jogos, como o xadrez, e a própria arte caligráfica, pois encaravam
a palavra escrita como o meio por excelência da revelação divina. Na culinária,
difundiram o uso do café, de doces próprios e produtos de pastelaria, do
azeite, em substituição à proibida gordura de porco, e de muitos outros
temperos, como o açafrão, a noz-moscada, o cravo, a canela e pimentas.
Recebemos tudo isso indiretamente, via colonização, em uma ampla
variedade de aspectos. Até mesmo o bom costume da limpeza pessoal, que muitos
atribuem somente aos indígenas, deve um tributo aos árabes. Foi Gilberto
Freyre, em seu Casa-Grande & Senzala, quem apontou o contraste da “higiene
verdadeiramente felina dos maometanos com a imundície dos cristãos”.
Na
música, o alaúde teve vasta descendência nas Américas, procriando verdadeiras
famílias de instrumentos caribenhos, o bandolim e o cavaquinho brasileiros, a
charanga do altiplano andino e o banjo dos negros norte-americanos. A gaita
árabe é possível antecessora da gaita ibérica, e o adufe, precursor do
pandeiro.
A aridez dos solos desérticos capacitou-os como mestres nas
técnicas agrícolas e de irrigação, importando para a Europa o moinho d’água,
avô do engenho colonial, e lá semeando o algodão, a laranjeira, a criação do
bicho-da-seda, o cultivo do arroz e da tão “brasileira” cana-de-açúcar. As
próprias técnicas construtivas, como a telha de barro do tipo capa e canal, ou
ainda a taipa de pilão, tão dominante nos primeiros séculos do Brasil, são de
influência nitidamente árabe.
O segundo movimento marcante foi a chegada direta de imigrantes,
sobretudo sírios e libaneses, a partir do final do século XIX. É possível que a
visita do imperador D. Pedro II a Beirute e a Damasco, em 1876, tenha servido
como primeira aproximação cultural entre as áreas de origem da imigração árabe
e o Brasil. Mas essa circunstância, por si só, não seria capaz de lançar tantos
espíritos inquietos na aventura de uma odisseia tão distante. A pretensão
inicial era uma migração temporária, para amenizar as dificuldades financeiras enfrentadas
por suas famílias.
Viviam um tempo de restrições econômicas, por conta da entrada de
produtos industrializados europeus (que minou a renda derivada da produção
artesanal), de algumas pragas agrícolas e da necessidade de mais terras para a
incorporação de herdeiros. Além desses motivos econômicos, outros fatores
relevantes influenciaram a decisão de partir, como a competição por status
entre famílias nas aldeias e os frequentes conflitos religiosos entre cristãos
e muçulmanos. Preocupante também era o recrutamento militar obrigatório
empreendido pelos turcos, em uma época de riscos provocados pela decadência do
Império Otomano.
De qualquer modo, os migrantes não eram aventureiros isolados, mas
indivíduos inseridos num contexto familiar, dispostos a acumular capital
durante certo tempo e depois voltar ao seio da família e da aldeia de origem.
Entretanto, o que pretendia ser provisório acabou se tornando permanente: em
vez de o imigrante retornar, em muitos casos foi o restante da família que veio
se juntar a ele no Brasil.
Redes de parentes, amigos e conterrâneos se articularam,
fornecendo referências valiosas aos que decidiam vir. Na mente de cada
emigrante formou-se uma geografia imaginária: um tio em São Paulo tornava
aquela capital brasileira mais próxima de sua aldeia na Síria ou no Líbano do
que a Espanha, ali do outro lado do Mediterrâneo. Interesses e favores dos
muitos conhecidos propiciavam o início da vida no novo país: casa, trabalho,
escola para os filhos.
Muitos dos já estabelecidos ofereciam um crédito inicial – sob a
forma de mercadorias, por exemplo – aos recém-chegados. Esse intenso movimento
migratório alcançou os rincões mais remotos do continente.
Onde quer que chegassem, eram
chamados da mesma forma: “turcos”. Uma confusão que os ofendia duplamente –
pelo equívoco geográfico e por referir-se a seus dominadores históricos. Culpa
dos passaportes que usavam, até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) expedidos
pelo Império Otomano.
No Brasil, a maioria era de origem libanesa ou síria. Sua
principal ocupação nos países de origem havia sido a agricultura, mas por aqui
abraçaram como profissão o comércio. Perseguiam a autonomia de gerir seu
próprio negócio, ainda que este fosse minúsculo a ponto de caber em uma caixa
de vendedor ambulante. A maior concentração ocorreu em São Paulo, mas os
“turcos” se espalharam por todo o país. Exemplo curioso dessa abrangência
geográfica: foi um mascate libanês quem filmou as únicas imagens conhecidas do
cangaceiro Lampião, na década de 1930. Benjamin Abrahão, que era também
fotógrafo e homem de confiança do padre Cícero, infiltrou-se no bando e gravou
momentos do seu cotidiano, como narra o filme “Baile perfumado” (Paulo Caldas e
Lírio Ferreira, 1996).
Os árabes mascateavam também pelas zonas rurais, mas fixaram-se
sobretudo nas cidades, inicialmente em cortiços, moradias populares com cômodos
para alugar, onde se aglomeravam famílias inteiras em espaço reduzido. A vida
girava em torno da família e do trabalho. Loja na frente, casa nos fundos ou no
andar de cima do sobrado, família “mourejando”, trabalhando “como mouros”.
Mas o balcão das lojas não seria o ponto de chegada de suas
trajetórias. De mascates a pequenos comerciantes, depois varejistas,
atacadistas e industriais. Vencidas as dificuldades da primeira geração, os
pioneiros trataram de buscar para seus filhos a ascensão socioeconômica via
educação. Queriam vê-los como doutores – especialmente médicos e advogados –, e
assim muitos o fizeram, aproveitando-se, no início, de clientelas cultivadas na
própria colônia, depois estendidas a outros estratos sociais.
A partir de então, a inserção privilegiada e o amplo conhecimento
social angariado desde os tempos de mascate, aliados à legitimidade que um
diploma conferia, frutificaram em carreiras públicas. Em todo o continente
menciona-se o grande número de descendentes de árabes na política, como os
presidentes Turbay Ayala na Colômbia, Abdalá Bucaram no Equador e Carlos Menem
na Argentina. De posições destacadas em áreas como a linguística e a medicina,
a presença árabe chegou ao que há de mais popular no Brasil: o futebol, o jogo
do bicho, as escolas de samba. O que demonstra, apesar da origem cultural
relativamente distante, uma extraordinária capacidade de adaptação à nova
terra.
Outra peculiaridade que ilustra essa integração vigorosa é a
incorporação de iguarias à culinária local. Em São Paulo, de acordo com o
Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares, um quarto das refeições
servidas provém da culinária árabe. Algumas receitas difundidas pelos
imigrantes integram hoje a dieta habitual da classe média brasileira, como o
quibe, a esfiha, o tabule, a coalhada, o babaganouche, o pão sírio e a
lentilha.
Restaurantes especializados em cozinha árabe (ou em adaptações
inspiradas nela) proliferaram de tal forma que não há guia gastronômico sem uma
seção dedicada a eles ou shopping center em cuja praça de alimentação um deles
não esteja presente.
Até hoje, mais de um século após a vinda dos primeiros imigrantes,
nas entrevistas colhidas entre os mais velhos, entre aqueles capazes de olhar
para trás conscientes das dificuldades enfrentadas e do caminho percorrido, o
balanço da trajetória e da vida não deixa de registrar depoimentos emocionados.
“Na vida brasileira a gente adquire desde a infância uma tolerância que não
existe lá (...) Eu estou satisfeito da minha vida, confio no Brasil, aqui é
minha terra”.
Esse sentimento de gratidão e confiança, em geral embalado por uma
considerável mobilidade socioeconômica, resume a bem-sucedida história dos
imigrantes sírios e libaneses no Brasil, um país tributário da cultura árabe
desde a alvorada da colonização. H
Saiba Mais - Bibliografia:
FREYRE, Gilberto. Casagrande & Senzala. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1969.
GREIBER, Betty Loeb et alii. Memórias da imigração - libaneses e
sírios em São Paulo. São Paulo: Discurso Editorial, 2000.
KARAM, J., T.. Um outro arabesco: etnicidade sírio-libanesa no
Brasil neoliberal. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
KNOWLTON, Clark S.. Sírios e Libaneses: mobilidade social e
especial. São Paulo: Anhambi, 1961.
Postado: Prof,: Felipe
Franco
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